… obituário de um prato

By Anna Angotti
Due Cuochi Cucina – Gnocchi com cogumelos
[ Nhoque com cogumelos do Due Cuochi: agora só na lembrança ]

Lembram que eu contei que levaríamos meus tios ao Maní em agradecimento às traduções dos textos do François Simon sobre os restaurantes de São Paulo? Pois bem: liguei lá cedo no sábado, mas as reservas para aquela noite estavam esgotadas. Perguntei se eles reservam todas as mesas. “Depende do dia, não podemos garantir que a senhora vai conseguir sentar mesmo se chegar aqui antes do restaurante abrir”.

Na dúvida, escolhemos esperar com certeza. Rumamos para o Due Cuochi. No fundo, a falta de clareza no sistema de reservas do Maní foi só a deixa para a mudança de programa: receávamos que a comida leve e moderninha da Helena Rizzo não entusiasmasse muito o meu tio, especialmente numa noite fria como aquela. “E o Due Cuochi é à prova de erros”, repetia o japa.

Na tentativa de ser bons anfitriões, chegamos mais cedo e colocamos o nome na lista. Só então ligamos para os tios marcando no restaurante daí a quarenta minutos. Quando eles chegaram, restava mais um tiquinho de espera, mas nada muito grave.

Na hora de escolher os pratos, o Bicho sentiu o peso da responsa: eles nem quiseram ver o cardápio, deixaram tudo com a gente. “Sorte que existe o irreprovável nhoque de batata com cogumelos, pelo menos uma pedida está resolvida”, pensei.

Só que, enquanto vasculhava o cardápio em busca da segunda indicação, levei um susto: o nhoque com cogumelos tinha sumido. No lugar dele, uma versão de mandioquinha, com tiras de filé. Como assim?

O garçom explicou que o prato ficara de fora na reformulação do cardápio, que de vez em quando precisa mudar, que eu experimentasse o de mandioquinha que era melhor ainda blablablablablablablablabla. Ele falando e eu cada vez mais transtornada, pensando não só na gravidade de ter que escolher dois pratos para dois tios exigentes, mas também no que pedir para mim (afinal, saí com saudades toda vez que traí o nhoque).

Como conviver daí pra frente com a notícia da extinção do meu prato de massa favorito de todos os tempos? Como encarar de novo a espera do Due Cuochi sabendo que não terei mais a primeira garfada do levíssimo gnocchi a me recompensar… e as garfadas seguintes a apagar a memória da espera (que, quando a última bolotinha vai à boca, já se tornou um pesadelo superado)?

Não estou dizendo que as outras massas são ruins, pelo contrário. Delícia o nhoque de mandioquinha, embora os carnudos cogumelos de outrora tenham sido substituídos por lâminas fininhas de champignon. Os tios também elogiaram seus pratos: nhoque de batatas e espaguete, ambos com molho simples e equilibrado de tomates. Provavelmente outras tantas receitas são as favoritas daquele mundaréu de gente que se acotovela por uma mesa no Due Cuochi.

Pra mim, nenhuma se compara ao nhoque com cogumelos – que passa, a partir de agora, a viver só na memória, entre outras coisas queridas que provavelmente não voltam mais.

Chegando em casa, leio no Twitter do Gourmet Blasé a notícia de que o Tête à Tête fechou, que tem até placa de “aluga-se” na porta. Estamos há tempos ensaiando para voltar lá: faltava provar a famosa mini-abóbora com camarão e eu já estava com saudades do mil folhas de maçã temperado com tomilho. Mais um que vai pro plano das lembranças?

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[ Mil folhas de maçã com tomilho do tête à tête: saudades ]

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14 Respostas para “… obituário de um prato”

  1. Alhos, Passas e Maçãs Disse:

    Bicho,
    acho que estou ficando velho e reclamão, mas… Nunca acredito em sistemas de reserva que são displicentes ou arrogantes. O Maní e o Due Cuocchi são campeões na categoria.
    Embora não fosse grande fã do Tête-à-tête, fiquei chateado com o fechamento. Uma pena. Era honesto e o chef, cuidadoso.
    Agora, nhoque… é do Vecchio Torino. Exatamente 18 e todos inesquecíveis.
    Abraços!

    • Anna Angotti Disse:

      Alhos, a única vez que fomos ao Vecchio Torino não curtimos nadinha. Tá certo que não provamos o nhoque, mas sim um penne que vinha servido numa panela Tramontina – o que nos pareceu meio descabido naquele lugar tão quadradinho. Mas você anda numa campanha… vai que nos convence a voltar, né? Aguardamos ansiosamente o seu post!

  2. Gourmet Blasé Disse:

    Bichos!

    Pois foi esse mil folhas de maçã, uma das sobremesas preferidas da Anna, e a tal mini-abóbora de camarão, que tem até vídeo no YouTube do chef preparando, que me incentivaram a conhecer! Uma pena, pois parecia tudo muito bão!

    Sem opção, e após trair o Benny e a Andrea, passando em frente aos respectivos Ici e AK e não entrando, fui parar no bombástico La Frontera!

    Aliás, estou muito feliz de dar meu primeiro furo de reportagem… HAHAHAHA

    • Anna Angotti Disse:

      Parabéns pelo furo de reportagem, Blasé! O La Frontera tá cada dia mais controverso, tamo criando coragem de voltar pra ver qualé. Cada vez que a gente vai, a receita de ceviche é diferente… e quanto mais eles mudam, mais saudades dá da primeira versão. Sintomático?

      • Claudia Carmello Disse:

        opa, uns amigos que foram no La Frontera outro dia disseram que o ceviche não está mais no cardápio! eita

  3. Joaquim Disse:

    O Tête a Tête não resistiu a um mercado saturado de invencionices,caiu por seus próprios defeitos e suas poucas qualidades.Abrir e fechar restaurantes é uma das características das grandes cidades ,mais um que morre e não deixa saudades.

    • Anna Angotti Disse:

      Joaquim, tivemos boas surpresas as duas vezes que jantamos no Tête a Tête, mas tanta gente andava falando mal que a gente tava se sentindo na obrigação de voltar lá e tirar a prova. Não deu tempo. Com isso, ficam só boas lembranças… especialmente do mil folhas e das facas Laguiole.

      Abração

  4. Joaquim Disse:

    A galinha d’angola do Dalva e Dito também foi retirado do cardápio ,mesmo com toda tecnologia eles não conseguiam entregar o produto sem reclamações do cliente que achava muito demorado.Ali é outro lugar que se não tiver cuidado ,vai morrer logo .

    • Anna Angotti Disse:

      É, Joaquim. Foi o único lugar que o François Simon (que se revelou tão generoso com os restaurantes paulistanos) não elogiou. Perigoso…

  5. Ricardo Reno Disse:

    Anna,

    Sobre o Tête a Tête.

    “Lugares diferentes na face da terra possuem eflúvios vitais diferentes, uma vibração diferente, química diferente, uma polaridade diferente com estrelas diferentes: chame do que quiser. Mas o espírito do lugar é uma grande realidade”. (D. H. Lawrence).

    Abraços

  6. Fabio Arthur Disse:

    Bicho, esta questão do nhoque de cogumelos do Due Cuochi me fez lembrar um prato do qual gosto muito: Nhoque Mineirinho, do Buttina. Sei que vocês não são muito fãs do nhoque deste restaurante, mas esta versão sem molho, apenas com pedacinhos de tomate fresco e queijo minas, é bastante leve, delicada e saborosa. Se ainda não provaram, está dada a dica.

  7. Claudia Carmello Disse:

    ai meu deus, não acabaram com o raviolini de gema mole com azeite trufado, né? E o fettucine com ragu de pato? são meu preferidos

  8. lucia sequerra Disse:

    Ouvi dizer que o resturante fechou por falta de acordo com o locatário, vamos esperar….morro de vontade de ir no la frontera nunca fui….

    terei o maior prazer de recebe-los aqui no meu micro resto na rua sta madalena, comidinha boa sem espanholices

    abraço

  9. teterestaurante Disse:

    Queridos Anna e Demian

    Só hoje após abrir o blog para dar uma atualizada e aprender a lidar com essa ferramenta (que há muito estava planejado ativar e por falta de tempo não me era possível) li a carinhosa mensagem.

    Devido a desacordo comercial com a proprietária do imóvel tivemos que mudar de endereço o nosso querido Tête á Tête, dessa vez para um local próprio que permita tranquilamente dar continuidade a nossa proposta gastronômica.

    Lamentamos pelo Joaquim… Más voltaremos.

    Gostaríamos de poder dar uma data, contudo sabe como funcionam obras.

    Obrigada pela lembrança e as bonitas palavras.
    Foi uma pena que não tivessem tempo de voltar já que com toda a certeza a experiência teria sido tão grata quanto das vezes anteriores.

    Um forte abraço

    Gabriel Matteuzzi & Pilar Perez-Hita

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