
Vai até o fim de julho nas pizzarias Bráz o festival “Fora de Série: O Milagre de San Gennaro”. A intenção é reproduzir com o máximo de fidelidade a legítima pizza napolitana aqui em São Paulo. Não poderia ficar de fora o mítico tomate San Marzano – indispensável nas melhores pizzarias de Nápoles – importado com exclusividade. A marca escolhida é a do produtor Sabato Abagnale, que faz um número limitado e disputadíssimo do enlatado “Il Miracolo di San Gennaro” (diz a lenda que o vermelho desse tomate é tão intenso quanto o do sangue de San Gennaro, que supostamente se liquefaz do pó em certos dias do ano, comemorados pelos napolitanos). Pra ajudar no milagre são utilizados também farinha, atum, orégano e até água importados da Itália.
Mas chega de press-release e vamos às dicas pra você testemunhar a transfiguração das redondas napolitanas com seus próprios olhos:
1. Forre o estômago. Estranhamente as pizzas do festival parecem menores que as do cardápio regular. Então, previna-se pedindo uma entradinha, como uma fatia de pão de calabresa ou um crocante corniccione bráz, coberto de alecrim e sal grosso.
2. Abra a carteira. Já que não vai ser um jantar barato (as redondas-especiais vão de R$ 45 a R$ 59), experimente uma garrafinha de água italiana Ferrareli (R$ 5,90), também vinda de Nápoles. Com um leve salgado e borbulinhas naturais superdelicadas, quase desbancou a San Pellegrino entre as minhas águas preferidas.
3. Se beber, não se reprima. Sirva-se de jarrinhas de 250 ml (R$ 19) dos três vinhos trazidos de Campania especialmente para o festival. Só sai R$ 6 mais caro que a garrafa inteira (R$ 51 por 750 ml), e fica muito mais divertido discutir qual deles hamoniza com o quê. Eu gostei do borbulhante e levinho quase doce Caputo Gragnano com a marguerita.
4. Respeite as tradição. A grande estrela do festival é o tomate “Il Miracolo”. Então não vá combiná-lo com a fortíssima azeitona da pizza Burrata (R$ 58), nem com o atum enlatado da Tonno di Cetara (R$ 59). Fique com a Marguerita (R$ 53) ou a Marinara (R$ 45): as duas únicas coberturas levadas a sério lá em Nápoles. Só assim o tomate vai conseguir te mostrar toda sua doçura e perfume. E aquele acidinho refrescante só no fundo do paladar. Uma delícia.
5. Reze pra San Gennaro. Para que os pizzaiolos napolitanos marquem presença na unidade Bráz mais próxima de você. Nem que seja em espírito. Eles com certeza não teriam deixado a muito elástica e fofa massa ficar finíssima ao centro. Meio empapada pela cobertura. E – pecado! – sem crocância nas bordas.
Mas, como não é um problema de produto nem de receita, e sim de uma – digamos – baixa repentina da temperatura do forno, o Bicho recomenda com força desembolsar uma graninha para experimentar os tão afamados tomates San Marzano. É o mais próximo de Nápoles que você conseguirá chegar sem ir pra Cumbica.
Que San Gennaro te abençoe!
Quinta-feira, 25 Junho, 2009 às 5:53 pm |
Bicho,
vejamos, vejamos.
O problema de comparar com a pizza napolitana davvero é o padrão brasileiro de muito molho e muita cobertura – e isso não tem como mudar porque o pessoal reclama. Ocorre que o molho e a cobertura excessivos ajudam a amolecer a massa, além de se sobrepor a ela. Mas paciência. É o que temos.
Fora o preço, que é um absurdo. Mas, infelizmente, é o que as pizzarias andam cobrando por aí.
Abraços e nos vemos por lá!
Quinta-feira, 25 Junho, 2009 às 6:25 pm |
Alhos, ótima observação.
Nunca estivemos em Nápoles. Mas da vez que fomos, há muito tempo atrás, a mais tradicional pizzaria romana ficamos reclamando: “só isso de molho! muquiranas…”
Quando esses brasileiros vão aprender?
Abraço!
Quinta-feira, 25 Junho, 2009 às 7:33 pm |
Alhos e Bicho,
Massa finíssima no centro, nem pensar. Mas se a ideia é fazer parecido com a vera napolitana, bom sinal o cornicione não ser crocante e o molho ser abundante.
Abraços!
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 10:34 am |
Alexandre. Mas uma crocância delicada – não aquela dura de casca de pão italiano – que se abre na primeira mordida para o interior fofo, elástico e muito perfumado é o máximo!
Steingarten, que pra gente vale mais que uma DOC, descreve assim a vera pizza napoletana: “Tem mais ou menos 25cm de diâmetro e pouco mais de meio centímetro de espessura, com uma borda estreita, queimada, fofa, sem molho, crocante, macia e leve. E na maioria das vezes é coberta, muito delicadamente, com tomates, alho, orégano e azeite…”
Sobre a quantidade de molho… Bem, a gente já mostrou nossa ignorância, né?
Abs.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 3:23 pm |
Demian,
Ótima a descrição do Steingarten.
Eu, que não comi de tudo, só posso contrapor minha limitada experiência ao argumento de autoridade levantado.
Enfim, parece que preciso voltar urgentemente a Nápoles!
Abraços!
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 11:16 am |
Eu creio que toda comida internacional é adaptada ao gosto da terra que a importa,aliás essa é a característica básica dos pratos que “viajam”.Migrações e o turismo fizeram com que comidas regionais e populares fossem exportadas,alguns dessa comidas “viajam bem “e outra quando desenraizadas perdem por completo sua originalidade .Por exemplo ,podemos reproduzir muito bem um cassoulet,mas será se teremos condições de reproduzir o sabor da charcutaria do Sudoeste da França?Creio que não.Eu não conheço a Bráz paulista ,só a carioca ,conheço a pizza napolitana razoavelmente bem ,e posso assegurar o que se faz em S.paulo em matéria de pizza é de altíssimo padrão.A Bráz do Rio ,chega ser comovente de tão boa ,não me importo nenhum um pouco com os santos italianos ,eu prefiro o nosso sabor.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 11:19 am |
“…e outras quando desenraizadas…e posso assegurar que o que se faz em S.Paulo.”
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 2:04 pm |
Joaquim, concordo contigo. As comidas e receitas são vivas: tem que evoluir, retroceder e (por que não) se contradizer.
Que São Frei Galvão nos abençoe!
Abs.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 1:45 pm |
o sabor da pizza passa diretamente pelo gosto da massa, que precisa ter um espessura no minimo razoavel para se poder sentir o gosto e não ser uma mera “sela” para carregar a cobertura. Sou fã de massa grossa! E pizza encharcada não dá!!!
E viva o steingarten!
Vcs. conversaram com ele no paladar do brasil???
abs. tádzio
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 2:06 pm |
Tadzio, depois daquele olhar-quarenta-e-seis dele ( http://quebichomemordeu.files.wordpress.com/2009/06/paladar_steingarten.jpg ), não ousamos levar uma rotobroilada na cabeça não!
Abs.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 3:52 pm |
eu vi a foto…tens certeza do calibre do olhar? parece calibre .50
abs tádzio.
e as historias dos fornos de pizza. Aquilo sim e que é trabalhar com tentativa e erro
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 3:28 pm |
Ontem uma desinformação do funcionário da Quintal da Bráz lamentavelmente me impediu de comer a margherita desse festival.
Semana que vem tentarei novamente.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 3:36 pm |
Alexandre, o que aconteceu exatamente?
Já decobri! A Quintal não tá participando do Festival… Puotz, a gente devia ter levantado essa bola.Não deixe de voltar aqui e deixar suas impressões sobre a pizza.
Abs.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 8:52 pm |
Que bela discussão sobre pizza napoletana encontrei aqui! Já comi ná Bráz paulista e acredito que também deva ter sofrido de uma baixa repentina da temperatura do forno, embora estivesse saborosa, mas com cornicione nada crocante.
A temperatura do forno e a farinha fazem toda a diferença: a farinha 00 utilizada na pizza napoletana tem baixo grau de umidade, o que dá o crocante e bolhinhas escuras características. A lenha utilizada normalmente vem de árvores frutíferas, que também dão um aroma inigualável.
Vale também uma nota: nos EUA e no Japão se fazem algumas autênticas redondas napoletanas. Vide Kesté, Motorino e Una Pizza Napoleta no Tio Sam e Salvatore Cuomo e Mar del Napoli no Japão, dentre outras.
Adorei conhecer o Bicho!
Abs. Vicente
Sábado, 27 Junho, 2009 às 7:21 pm |
Olá Vicente. No Japão há boas pizzas napolitanas??? Esse povo sabe mesmo copiar as coisas…
Abs.
Sexta-Feira, 26 Junho, 2009 às 9:56 pm |
Hey!
Nossa, mas será que precisa disso tudo e enfiar a faca de tal forma pra seguir a tradição do pobre santo italiano? Ou será que é mais uma forma de usar o beneditino como desculpa? fico aqui pensando…
Os posts estão ótimos, parabéns! adicionei o blog a minha página de favoritos….www.chefaporter.wordpress.com
Abraços!
Sábado, 27 Junho, 2009 às 7:29 pm |
Chefaporter, independentemente da autenticidade/marketagem achei bacana o pessoal da Bráz trazer os lendários tomates “Il Miracolo” pra cidade. Eles têm o direito de cobrar o que quiserem. E paga gente doida por comida como nós. Aiai. Abs.
Domingo, 28 Junho, 2009 às 9:12 pm |
Demian,
Foi exatamente o que você disse: a Quintal não participa do Festival, diferentemente do que me informou por telefone o funcionário (em duas ligações).
Ontem fui à Bráz de Higienópolis, pedi meia Margherita e meia Marinara.
A pizza do Festival é bem mais leve que a tradicional da Bráz. Massa bem levedada, de sabor tendendo para o neutro, tomates doces, intensos na cor e no sabor.
“Ingredientes 100% napolitanos” deve ser creditado ao pessoal do marketing. Sequer daria pra dizer 100% italianos. Roni, conforme consta do site do Festival, é a marca da muçarela utilizada. Ótima, mas — a cedilha não foi à toa — brasileiríssima.
A crocância da massa da pizza do Festival, valha-me San Gennaro (e perdoe-me São Steingarten), não encontra similar em nenhuma das quinze pizze que já comi em Napoli, em seis pizzerie diferentes.
No geral, excelente a ideia do Festival e muito boa a execução. Nota-se a preocupação em reproduzir a pizza napolitana com a maior fidelidade possível. A tirinha de massa, separando os ingredientes de pizzas de sabores diferentes, por exemplo, eu só havia visto antes, justamente, em Napoli.
Tanto gostei que pretendo voltar para provar a Burrata e a Tonno di Cetara.
Abraços!
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 4:33 pm |
Alexandre, ótimo relato! Apesar da difamação contra o Santificado Steingarten.
Você tem certeza que vai pedir a Burrata e a Tonno na próxima visita? Que coragem… Depois conta aqui.
Abs!
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 1:26 pm |
Bicho, sábado fui na Braz. E comi ( junto com a minha esposa) uma Margherita Verace.
Veredicto : eu tenho 2 modos de ver a coisa toda.
1 – Se você for olhar só pelo preço e pela formatação, eu achei bom. A pizza é cara e tem um jeitão de pasta ao sugo. (É a minha também estava bem úmida no centro).
2 – Se você ler o informativo inteiro ( por sinal, trouxe pra casa); se informar sobre como funciona o Milagre de San Gennaro; saber como é o plantio e a história do San Marzano e absorver a essência do projeto : é realmente uma bela viagem pra Napoli. Ou seja o preço é justo e o resultado é excelente.
Eu também tenho um critério pra descobrir se a pizza é boa : o day after. Trouxe 2 pedaços dela pra casa, esquentei no meu forno e os comi com prazer. Estavam crocantes ( até mais do que a da pizzaria!! rs) e saborosos.
portanto, idéia e resultado mais do que aprovados. Agora, só falta eu ir pra Napoli e me certificar se a pizza napolitana é realmente deste jeito ! rs
Abs.
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 4:45 pm |
Edu, adorei a prova dos nove! Não há desafio maior a uma pizza que o forninho elétrico do café da manhã. Hehehe.
Apesar do alto preço e da massa molhada, também achei que a “viagem a Napoli” valeu o passe.
Abs.
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 2:02 pm |
tem um livro, o culinaria italia, que serve de boa referência pelo menos visual para pizze veramente italianas. Ta fora de catalogo mas sempre tem um amigo que tem
O livro é bem bonito e tem muita informação em prtuguês de portugal.
abraço tádzio
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 4:46 pm |
Tadzio, veja aí se tem crocância nas bordas ou não! Abs.
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 4:58 pm |
Vou olhar no livro, sim eu tenho ele na casa do meu pai, mas o termo que eu tenho que procurar deve ser “códea ,ou algo do estilo, estaladiça.
Abraço tádzio
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 6:11 pm |
Demian,
Acabo de subir uma colagem com fotos que tirei em dezembro de 2007.
Parece até que antevia a polêmica. Como você pode ver, meti a mão na massa para demonstrar meu ponto de vista:
http://twitter.com/bronza/status/2393298964
Abraços!
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 6:26 pm |
Uau, Alexandre. Que delícia de foto! Acho que o povo da Bráz está certo então. A vera pizza napoletana também parece meio molhada / molenga no centro.
Você experimentou a Da Michele? E a da La Notizia?
Abs!
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 7:05 pm |
Da Michele (a da colagem; custa ridículos 4 euros), Di Mateo, Brandi, Ciro, Trianon… tem mais, mas assim, de bate-pronto, são as que lembro ter experimentado.
Crocância, insisto, tem bem de leve, logo que chega à mesa, mas não colocaria como característica da pizza napolitana; o molhadinho no centro (que tem também na da Speranza), sim.
Aliás, a paulistana que mais se aproxima da napolitana é a Margherita da Speranza — e a massa da pizza do Jardim de Napoli (quando acerta, pois varia bastante).
Mas para que a da Speranza fique mais próxima ainda da de Napoli tem um truque: peça com mais molho e bem menos queijo.
Palavra de pizzaiolo amador e fã da vera (e inigualável) Margherita.
Abraços!
Segunda-feira, 29 Junho, 2009 às 7:15 pm
Alexandre.
Momento merchã: a nova revista Lonely Planet editada pela Duetto está com uma matéria gourmet sobre Nápoles: “Em Busca da Pizza Perfeita”. As fotos são de dar água na boca. Há uma inclusive de latas de “Il Micaroco”! Nas bancas por R$ 10,90.
Abs.