… a crise do sabiá

By Demian Takahashi
cadu_castigo
[ Cadu de castigo: refletindo sobre Que Bicho ELE Mordeu ]

A Anna me acordou aos berros: “Acho que o Cadu matou um passarinho”. Como assim? “To sem óculos, só vi um borrão no chão. Vai você na cozinha e me diz.”

Sim, o sabiá do tamanho da minha mão estava com os olhinhos esbugalhados em frente à pia. Com um papel toalha o embrulhei com cuidado, como uma mortalha. Era tão frágil, tão leve que eu evitava machucá-lo ainda mais. O chão da cozinha estava coberto de penas. Parecia um campo de batalha. Tive que usar o aspirador de pó para fazer a limpeza. E durante todo o tempo, o Cadu me olhava indagando: “que foi?” Não pude conter minha raiva: “tá olhando o quê? sai daqui senão eu te estrangulo!”, gritei.

Não sem um pouco de culpa. Afinal, na mesma cozinha, cansei de limpar filé mignon, a pia coberta de sangue. Sempre sob o olhar atento, fissurado do gatinho. Como repreendê-lo agora? Depois que ele aprendeu a ser companheiro daquele cheiro doce de sangue? Como berrar com o gato? Se no próprio logotipo do blog há um presságio do fim do sabiá?

A Anna – mais bem resolvida que eu nessas questões – decretou a sentença do Cadu: “no more wet food for you”. E eu concordei, mesmo sabendo que dificilmente ele iria associar o crime ao castigo. De alguma forma ele deveria pagar! Não tanto pelo seu assassinato, mas sim pelo transtorno que me causou.

Os miados histéricos no horário da comida, às 22h, não me comoviam. Pelo contrário, só denunciavam mais e mais estridente as mortes: as penas do sabiá espalhadas pelo chão, a pia cheia de sangue do filé.

Passados dois dias, o gato parece mais conformado com o corte temporário de comida úmida. Mesmo assim continuamos nos estranhando, olhando de lado um pro outro. O pior foi quando li na expressão do Cadu: “por que está tão bravo? não somos todos bichos?”

12 Respostas para “… a crise do sabiá”

  1. luiz horta Disse:

    coitado do sabái! eu sempre sentia isto quando removia o corpo de uma lagartixa que a frederica me dava de presente. coitado do cadú! coitado de todo mundo! :-) prefiro não pensar nestas coisas.

  2. luiz horta Disse:

    sabaí não, sabiá, isto que dá escrever deitado.

  3. Anna Angotti Disse:

    A grande diferença entre nós e o gato assassino é que a gente come o bicho, ele não. Como bom gato doméstico, deixa o passarinho estatelado na cozinha e, no minuto seguinte, começa a miar loucamente pedindo ração enlatada. Por isso o veto.

    Ah, e ele tem também que se conformar com água do potinho. Não to abrindo a torneira do tanque pra ele, não.

    Pior que a Ofélia está sofrendo junto: não dá pra separar a dieta. E também não dá pra jurar que ela é 100% inocente, apesar de o sabiá ser maior que ela.

    Por via das dúvidas, estão os dois de castigo, até segunda ordem!

  4. jussara Disse:

    acho que vale “tentar” explicar pra ele que apesar de ser do seu instinto caçador ele não precisa provar nada pra ninguém porque vocês acham ele o máximo mesmo sem caçadas… Comigo funcionou e olha que o kiri levava o “troféu” para o meu quarto. Foram duas vezes apenas. Uma quando eu briguei e ele retrucou muito nervoso, e outra quando “conversamos” mais calmamente sobre o assunto e depois de muito blábláblá parece que ele entendeu, não caçou mais e olha que moramos no mato, sempre tem um bichinho de asas por perto. Agora tento convenceu os jovens miumiu e liopoldo… De qualquer forma, muito triste…melhor não pensar, como diz o luiz

  5. Carlos Disse:

    Fiquei com dó…. do gato! Castigar ele só por matar um passarinho? E se fosse um ratinho? Acho que caberia aos donos ensinar que depois de matar tem que comer a presa, muito mais natural, aposto que ele ficaria muito mais contente. Pelas minhas últimas observações em relação a raça humana, acho que a gente tem muito mais a aprender com os bichos do que eles com a gente.
    Abraços!

  6. Anna Angotti Disse:

    Se fosse um ratinho ele estaria de castigo também, oras. Eles são mamíferos (sem falar no Rémy…).

  7. Nina Disse:

    Putz! O nosso dog sempre derruba os passarinhos que sobrevoam. Ele já vive no quintal, só come ração seca, maçã e cenoura. Fica difícil punir. Sei que os cachorros só associam quando a punição acontece logo depois – não sei como é com outros bichinhos. Quando pegamos na hora, ele escuta um monte e fica sem os brinquedos.
    bjo

  8. jussara Disse:

    sinto informar que a conversera não adiantou nada, o kiri só deixou de levar o “troféu” para eu ver, soube que anda caçando escondido…

  9. Bruna Disse:

    A segunda ordem foi dada!
    Na casa dos tios eles comem um montão de “wet food” e tomam água na torneira. A festa está rolando até terceira ordem.
    Beijos e parabéns pelo blog.
    Pauloso e Brunetica

  10. Demian Takahashi Disse:

    Hihihi… Jussara, bem que a gente desconfiou dessa psicanálise pra gato. Eu sou mais o aprendizado pelo bucho: no more wet food para eles!

    Bjs.

  11. jussara Disse:

    melhor nem pensar e nem falar… mundo cruel

  12. Creuza Moura Disse:

    O que fazer é o instinto deles oras!
    para atender a uma necessidade nossa de educar , ralhamos, corta o brinquedo , corta petisco, coloca de castigo. o quer de fato da resultado? NADA . o bicho fica é dissimulado , sem vergonha mesmo!
    mas que traz a uma reflexão , isso traz…
    Adorei o blog
    ja esta na minha lista de visitas diarias.
    Parabéns

Deixe uma resposta