
[ As espumas já são out. Para os gastrochatos, a feijoada com esferas do Maní é que é in ]
A coluna do Walcyr Carrasco na Vejinha dessa semana desce a lenha em quem segue as modas culinárias, gente que ele chama de “gastrochatos”.
Gastrochatos seriam pessoas que acham o máximo “a tal da espuma” que, segundo ele, é um prato dos mais falados. Tirou sarro do ovo perfeito, “um ovo cozido a determinada temperatura durante horas”, com a pergunta “ovo não tem sempre gosto de ovo”? Disse que toda essa onda é culpa do Ferran Adrià, chef de um restaurante onde as reservas devem ser feitas com dois, três anos de antecedência. Descascou um tartar de tomate que teria sido servido em um jantar caríssimo, disputado a tapas. E colocou no mesmo balaio o que ele chama de “gastrochatos da saúde”, incluindo os vegans e os macrobióticos.
Com todo respeito ao Walcyr – que, além de colunista da Abril é autor de vários livros na Ática –, ficamos brincando de jogo de 7 erros com o texto dele. Vejam só:
1) Espuma não é um prato, e sim um dos componentes de um prato. Ninguém come espuma pura. Realmente as pessoas andam abusando, fazendo espuma dos ingredientes mais esdrúxulos e colocando em tudo que é receita, mas há por aí pratos deliciosos em que a espuma realmente faz diferença. Ah, e espuma já virou carne de vaca. O negócio agora são as esferas…
2) O “ovo perfeito” é servido no Maní, restaurante contemporâneo que anda inventando receitas brilhantes. Tá certo que o tal ovo, cozido a baixa temperatura, não é uma delas: além da pretensão do nome, a qualidade oscila (cada vez que provamos a gema tinha consistência diferente). Não, Walcyr, ovo não tem sempre o mesmo gosto.
3) Quando o ElBulli, restaurante do Ferran Adrià, abre a agenda de reservas, elas só podem ser feitas para a temporada seguinte, e não pra daí a dois ou três anos. É verdade que elas se esgotam rapidinho e que furar a fila “é mais difícil que fazer tomografia no INSS” – a gente bem que tentou (o ElBulli, não o INSS).
4) O tal do jantar caríssimo em que foi servido o tartar de tomate – mais especificamente um tartar de tomate com camarão e alho branco, criação do Francis Paniego, do restaurante Echaurren, de Rioja – foi o “Jantar do Século”, promovido pela revista Prazeres da Mesa. Apesar de muito alardeado, ficou longe de ser disputado a tapas: quem tivesse R$ 5 mil pra desembolsar por cabeça não encontrava muitos concorrentes no Mercado Livre, onde os “convites” estavam sendo leiloados.
5) Vegans e macrobióticos deviam ter ficado para uma outra crônica.
Xiii, Walcyr, a carapuça serviu. Parece que somos gastrochatos, mesmo. Mas com conhecimento de causa!
Domingo, 16 Novembro, 2008 às 3:27 pm |
Mas afinal: quem é este Walcyr?
Prefiro ser gastrochato que um simples chato.
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 11:03 am |
Continuando o jogo dos sete erros…
O “ovo perfeito” é um prato muito antigo chamado onsen tamago. Ovo cozido dentro de uma fonte termal no japão. Depois que apareceu o Atala falando desse ovo como se fosse uma descoberta dele vários chefes resolveram colocar no cardápio.
A esferificação é uma técnica que pelo menos desde 2005 já fez parte do cardápio do El Bulli. Para a vanguarda espanhola e muito dos bons restaurantes dos EUA não é nenhuma novidade, pelo contrário, já está ultrapassada.
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 11:15 am |
Carlos,
O melhor dessa coisa toda de “gastrochatos” é que a gente acaba encontrando pessoas ainda mais “gastrochatas” que nós!!!
Aproveitando: você sabe onde a gente consegue comer um onsen tamago autêntico em Sampa?
Abração
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 11:45 am |
Acho que se pedir pro Shin do Aizome ele faz…Mas se for pro Japão, em qualquer onsen (terma) dá pra comer no café da manhã.
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 11:54 am |
Huuuuum… enquanto a gente não vai pro Japão, vamos então tentar com o Shin. Depois a gente conta! Valeu pela dica.
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 4:03 pm |
Essa “feijoada” da foto é legal?
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 4:38 pm |
Luana.
O pessoal riu de mim pois eu disse que as esferas de feijão não eram esferas de verdade, pois pequenas demais, ainda babies…
É que eu me expressei mal: como o recheio de feijão é bem espesso, e a esfera pequena, não há aquela explosão, aquela brincadeira de textura que é o barato da esfera. Achei mais interessante que bom de fato. Mas.. há controvérsias.
Bem melhor é a lichia com foie gras e gelatina de sauternes. Uma delícia!!!
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 4:54 pm |
Onsentamagô??? Humm. Nunca ouvi falar…
É bom?
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 5:10 pm |
Para quem quiser saber mais sobre esses ovos:
http://epicureandebauchery.blogspot.com/2005/06/imbb-onsen-tamago-hot-spring-eggs.html
No livro do Tsuji “Practical Japanese Cooking – Easy and Elegant” ele dá uma receita deste ovo mas o chama de ondo tamago…
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 6:38 pm |
O ovo perfeito, pelo que entendi, é feito num banho com os macacos. O macaco faz parte da receita, dá um sabor e ainda cata piolhos. Mas tem que pedir licença a ele para entrar na água. Mas pode ser só um caso de lost in translation. Tem que ter um ovo para cada pessoa e um para o macaco.
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 às 6:59 pm |
Na verdade o ovo perfeito é um clássico moderno da cozinha contemporânea, vários chefs fazem suas versões, Roca, Andoni Luís, o próprio Ferrán e outros tantos. Variam os acompanhamentos, os toques de criatividade e tal. E dá para fazer em casa sim, com um termômetro, como demonstrou o Geoffroy De la Croix na matéria de capa do Paladar sobre Baixa Tecnologia (instante comercial do meu comentário).
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 6:48 am |
Então a charada está resolvida…Provavelmente os nipozarus (macaco-japonês) encontraram algum jeito de viajar no tempo e passaram a receita do ovo para algum espanhol. Será que existe alguma conexão entre os nipozarus e o ETA? Eu sempre desconfiei da atitude desses macacos…
Bom, a julgar pela quantidade de ingredientes japoneses que os chefs espanhois do “jantar do século” usaram, talvez esta teoria faça sentido realmente. Só não entendi uma coisa… “Clássico Moderno da Cozinha Contemporânea” (???)
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 8:48 am |
Perguntas:
Desse povo todo que faz o ovo, alguém além do Maní teve coragem de chamá-lo de “o ovo perfeito”? (os japas costumam ser mais discretos). E em algum lugar ele é de fato perfeito? E quanto os macacos (e os piolhos) colaboram para a perfeição?
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 9:42 am |
Quem mais estudou a técnica e difundiu pelo mundo da alta gastronomia foi o cientista Herve This (do livro Um cientista na cozinha) junto com o chef francês Pierre Gaignare. Aqui no Brasil acho que o primeiro a aparecer fazendo foi o Alex Atala. O Carioni fazia no Cantaloup, não sei se continua fazendo em seu novo restaurante.
Quem quiser tentar fazer em casa este site explica tudo:
http://discovermagazine.com/2006/feb/cooking-for-eggheads/article_view?b_start:int=0&-C=
Os macacos detém a técnica de cocção, mas ainda não aprederam a criar galinhas.
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 10:01 am |
Ué Carlos, para mim está bem claro, clássico, como ingrediente, mas muito modernista, quer coisa mais moderna que um ovo? E clássico já, como prato, na cozinha comtemporânea. Algo como um daqueles Marinetti ou vorticistas atacando na cozinha de hoje, em torno de um ovo. Ou Andoni Luis encontra Adolf Loos na cozinha do Jeca Tatu, um pirandal destes.
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 10:10 am |
Que eu me lembre, dos poucos que comi, o do Mugaritz, realmente perfeito (sem macaco) era chamado apenas de “ovo em baixa cocção”. “Seu” Berasategui também praticava um, igualmente perfeito, mas chamado de outra coisa. O do Maní, curiosamente bem longe da perfeição, ousou dizer o próprio nome…o que decepciona os comensais e os macacos, embora ambos tenham cada vez mqis dificuldade para conseguir reserva lá.
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 11:46 am |
Adoro ovo mas acho que não vale a pena fazer este tipo em casa – pelo trabalho – e nem comer em um restaurante – pelo preço. Qualquer restaurante que cobre mais de 2 reais por um ovo é um roubo.
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 11:59 am |
Xiii, Carlos. Até na refeição subsidiada na firma – onde muitas vezes um ovo frito é a única opção “engolível” – sai mais caro que 2 reais! Se depender de você, os ovos somem dos pratos!
Terça-feira, 18 Novembro, 2008 às 1:07 pm |
Pois é, se uma dúzia custasse 5 reais (é bem mais barato) ainda assim um ovo sairia por 40 centavos. A prática do mercado é multiplicar por 3 o custo dos ingredientes para fazer o preço final de venda, ou seja R$ 1,20.
Poxa, em qualquer lanchonete se vc pedir um ovo a mais no seu lanche ele vai te cobrar 1 real, porque nos restaurantes da “moda” teria que sair mais caro? Ok, normalmente ele é apenas um dos ingredientes do prato, mas meu ponto é: Muitos restaurantes perderam a noção do que é justo cobrar pela comida.
Olha, eu sou cozinheiro de profissão, já fui chefe em alguns lugares, acho que nada justifica cobrar preços abusivos, isso não ajuda em nada. Enquanto em outros países procura-se trabalhar com ingredientes da época ou mais baratos para tentar ter um preço de venda melhor, aqui no Brasil ocorre o contrário.