Quando aparece restaurante novo em São Paulo, a gente já fica com a pulga atrás da orelha. É um dilema, porque a nossa veia de repórter nos impele a ir conhecer, mesmo com a voz da experiência nos alertando: “por que arriscar numa nova casa – que tem grandes chances de desapontar – em vez de ir ao velho e bom Due Cuochi?”
Ainda bem que de vez em quando a veia de repórter sai no lucro. E não me refiro a poder descontar todo o ódio do mundo fazendo um monte de críticas negativas. E sim – coisa rara – sair feliz com a sensação de que, sim, (boas) surpresas ainda são possíveis nas novas mesas de Sampa. É o caso do tête à tête, inaugurado no fim de fevereiro em uma charmosa casa antiga, na rua Bahia, em Higienópolis.

[ Atum marinado com salada e shiitake: o cardápio muda de acordo com o que há de mais fresco no mercado... ]
Escolhemos o menu mais enxuto, com uma entrada, um prato principal e uma sobremesa (R$ 83; o degustação, com sete pratos, sai a R$ 150). Foi o suficiente para descobrir que a cidade se deu bem com a decisão do chef Gabriel Mateuzzi e sua mãe e sócia, Pilar Perez-Hita, de deixarem para trás 22 anos de Europa para abrir um restaurante no Brasil.
Na mala, eles trouxeram o nome – que é o mesmo do bufê que Pilar comandava em Barcelona – e a experiência: Gabriel, que é superjovem, estudou gastronomia na Catalúnia e trabalhou com o estreladíssimo chef Michel Bras na França. (Ah, trouxeram também as facas da marca francesa Forge de Laguiole, que vieram à mesa com o medalhão que escolhemos como prato principal e que se tornaram instantaneamente objetos de desejo.)

[ A outra opção de entrada, o tomate caprese: difícil dizer qual estava melhor ]
Mas não passemos o prato principal na frente da entrada. Tínhamos duas opções para começar: Tomate caprese (tomate caqui com surpresa de mozzarela e pó de azeitona, salada de manjericão) ou Atum marinado ao estilo sushi, salada de rúcula silvestre, radiccio e ervas, com shitake sautée. Não chegamos a um consenso de quem se deu melhor.
A tal surpresa de mozzarela consistia em diferentes texturas do queijo (tinha bolinhas de búfala fresquíssimas e um creminho delícia). O atum estava ótimo, só pecou pela descrição do cardápio: “ao estilo sushi”. Não seria sashimi, já que não tinha arroz? Mas é claro que a gente perdoou, diante de sua delicadíssima textura. Em tempo: o cardápio muda semalmente, de acordo com o que há de mais fresco e, ao que tudo indica, com a inspiração do chef.

[ De prato principal, mignon com cogumelos e croquetes de batata e queijo meia cura: isso é que é medalhão! ]
De prato principal, fomos os dois de Filet-mignon poilée ao “beurrenoisette”, demi-glace ao cogumelo trompete noir (craterellus comucopioides) e croquete de batata e queijo meia cura. Sim, um prato com nome, sobrenome e até nome científico que, embora tão detalhadamente explicado no cardápio, ainda nos foi recitado várias vezes: quando o “sistema da casa” foi apresentado, na confirmação do pedido e finalmente quando foi servido (acrescentando-se que o queijo meia cura vinha lá da Serra da Canastra, MG).
Há de se dizer que o serviço, gentil demais, peca pelo exagero. Eu, pelo menos, tenho verdadeira aflição quando o garçom fica plantado perto da mesa me observando comer… Mas se o lugar perdeu pontos pela onipresença do garçom, pela constrangedora repetição da descrição dos pratos e pela confusão sempre que era hora de abastecer um copo com água com gás e outro com água sem gás, recuperou-os todos ao recebermos a indicação de um excelente vinho espanhol mais barato do que aquele que esboçamos pedir.

[ Mil folhas de maçã: delicado e inusitado tempero de tomilho ]
Antes da sobremesa, um sorbet – coisa difícil de se ver hoje em dia. Mais raro (ou único) ainda: de brioche e mel! Perfeito. Para fechar, uma reconstrução do tradicional tiramisu, em uma taça, que agradou em cheio ao japa. Para mim, mil folhas de maçã (temperada com tomilho, o máximo!), acompanhado de um nada enjoativo sorvete de mel.

[ Tiramisu em taça: releitura do chef Gabriel ]
Para completar a dose de surpresas, petit-fours originalíssimos: três pirulitos para cada, um de chocolate escuro com flor de sal, um de chocolate branco com curry (mais uma combinação inusitada e sensacional) e um algodão-doce capaz de transportar qualquer marmanjo para os parques de diversão da infância. Ao mesmo tempo provocador e reconfortante.
Ou, como se diz por aí, comida com alma.

[De volta à infância: pirulitos e algodão doce ]
tête à tête
Rua Bahia, 480 – Higienópolis
(11) 3825-6312
*Para quem não conhece, esse é o título de um clássico da literatura infantil brasileira, de Fernanda Lopes de Almeida
Tags: Contemporânea, tête à tête
Segunda-feira, 7 Abril, 2008 às 3:02 pm |
Conversa da mesa ao lado com o chef Gabriel: “vou sempre ao ici bistrô, aqui do lado, mas você dá de 10 nele…” Verdade? Ou babação?
Terça-feira, 8 Abril, 2008 às 12:11 am |
O mesmo freguês dizia aos brados que o tête à tête dava um banho no vizinho La Brasserie Erick Jacquin… faz tempo que a gente foi e não morri de amores. Tá na hora de voltar e tirar a prova.
Terça-feira, 8 Abril, 2008 às 12:27 pm |
Que coincidência! Eu fui no La Brasserie Erick Jacquin sábado (lembra que não consegui entrar no La Frontera?). Puts, achei tão metido, sabia? Nada aconchegante o ambiente, bonito mas frio. Não tinha cadeirão pra minha sobrinha Sofia – achei o fim e tivemos que ficar com ela pulando de colo em colo. Bom, a comida estava muito boa, correta. Fomos de medalhão ao mostarda (alê), salmão com espuma de champagne (iza), steak tartar (eu), picadinho de carne (gui). Quem se deu melhor foi o gui, o prato dele vinha com três panelinhas lindas de cobre, com arroz, uma feijoadinha e farofa, e no prato mesmo tinha um macaron de feijão (adocicado, bem estranho). O meu tartar estava muito saboroso, carne picadinha na ponta da faca, molho puxado pra mostarda ótimo, o molho da salada verde simples que acompanhava, também. Mas cansei um pouco deles no fim – muita acidez, acho (um pouco culpa minha que pedi sem pommes frites). Saldo final: comemos bem mas não teve aquele it. Pulamos a sobremesa e o café veio sem petit-fours – nem uma mísera bolachinha no pires! E serviço cobrado era de 12%. Sinceramente, não pretendo voltar.
Terça-feira, 8 Abril, 2008 às 1:12 pm |
Ah, mas no domingo eu e o Gui acabamos voltando no La Frontera, não tinha fila – até queríamos ficar um tantinho no bar, mas não deu tempo – e sentamos. Adoramos tudo! Sabia que O Bicho não falha! A entrada foi shitake gralhado com queijo de cabra bouche e azeite com macadâmias – uma delícia (ok, podia ter um pouquinho menos de azeite). Eu pedi leitão com purê de batatas na grelha e farofinha (a farofinha era um espetáculo) e o gui pediu a polenta com shimeji, azeite de hortelã e mascarpone. Tudo muito bom, mas eu me dei melhor, porque era saboroso demais meu leitão com farofa. Quero ir de novo, esse sim. Beijos, queridinhos
Quinta-feira, 10 Abril, 2008 às 11:00 pm |
Esse leitão do La Frontera é um pecado. Mas vocês precisam provar o ceviche. É o melhor de São Paulo!
Domingo, 4 Maio, 2008 às 10:00 pm |
Esse novo restaurante realmente esta dando o que falar !!!!
Tenho ouvido muitos elogios , espero que pensem em abrir
uma filial no Rio , pois nao temos nada parecido , nem mesmo
o Fasano em Ipanema , fui outro dia e deixou muito a desejar …
Terei que ir a SP toda vez que quiser comer bem ???
bjosss e sucesso $$$$$$$$$$$$$$
Terça-feira, 6 Maio, 2008 às 7:51 pm |
Ué, Silvia? E a Roberta Sudbrack? Não é tudo-de-bom??? Bjs!
Quinta-feira, 26 Junho, 2008 às 9:39 pm |
[...] Tête à tête agora tem menu na internet. Para um restaurante com “cozinha de mercado”, que muda o cardápio toda semana, faz todo o sentido. O pior é tentação. Na sexta passada (salão tranqüilo, apesar de todo o hype) tinha lula recheada com ratatouille. Inusitado e delicioso, com sua tinta num traço Amilcar de Castro no prato. [...]
Quinta-feira, 11 Junho, 2009 às 8:14 pm |
Agradeco muito a recomendação. Fui almocar no Tete a Tete e a cozinha e fantástica. O carre de cordeiro rose e os outros pratos do menu eram perfeitos.
O Gabriel Mateuzzi e um verdadeiro artesão que quer (e consegue) fazer de cada prato uma obra-prima (chef d’oeuvre).
O serviço e muito atencioso e simpático.
Da vontade de ligar para os jornalistas especializados e pedir para ajudar este lugar a se firmar na paisagem culinaria paulista onde faltava uma casa como o Tete a tete.
Para mim este restaurante e Nota 10.
Sábado, 13 Junho, 2009 às 12:16 pm |
Ian. Ficamos muito felizes pelo seu belo almoço. O tete a tete é meio controverso. Há gente que adora, gente que odeia. E nisso vai sendo esquecido, deixado de lado…
Depois de seu comentário, ficamos com uma tremenda vontade de voltar lá. Grande abraço.
Domingo, 5 Julho, 2009 às 12:24 am |
[...] bem no blog dos bichos, como sendo um novo e agradável restaurante em Higienópolis. Confiram o post no blog [...]