… the American state of mind

segunda-feira, 8 fevereiro, 2010 por Anna Angotti

Ontem nos twitters dos americanos não se falava em outra coisa que não o Super Bowl Sunday (a final do campeonato de futebol americano, com importância equivalente à Copa do Mundo pro Brasil). No caso do povo que a gente segue, lia-se mais sobre o que eles iam servir de comida para acompanhar o jogo do que do jogo em si. Mesmo em São Paulo, era impossível não se deixar contagiar. Não que eu quisesse assistir à disputa do New Orleans Saints com o Indianapolis Colts – afinal, não entendo nada de futebol americano –, mas bateu aquela vontade incontrolável de comer hambúrgueres, costelinhas de porco e chicken wings…

Sorte que, ao contrário das previsões oficiais, o 210 Diner, nova casa do Benny Novak (chef do Ici e do Tappo), já estava funcionando em sistema de soft opening. Segundo o Benny, faltam chegar alguns itens do cardápio para a inauguração amanhã (dia 9) e o serviço e a cozinha ainda precisam se afinar. Mas a impressão que tivemos é que a casa estava funcionando a todo vapor.

A começar pela sensacional trilha sonora (Lou Reed, Doors, Stones…) montada pelo chef com talento pra DJ que, junto com a decoração (neons, sofazinhos de madeira, sopas Campbell’s empilhadas em uma estante), nos transportou sem escala pros EUA.

O cardápio, bem mais extenso que nos outros restaurantes de Benny, não se restringe a uma região norte-americana: tem matzo ball soup das delis novaiorquinas, camarões com molho cajun famosos na Louisiana, Philly steak (signature-sandwich da Philadelphia, com rib eye, cogumelos e queijo ementhal), BLT (bacon, alface e tomate), o sanduíche dos americanos expatriados mundo afora… Tem também ostras e lagostas. E, claro, clássicos sem fronteiras, como hambúrgueres e hot dogs. Deu vontade de provar tudo.

Mas nessa primeira visita, ficamos firmes no que a nossa lombriga do Super Bowl pedia. Começamos nos lambuzando com uma porção de chicken wings (R$ 26), que na verdade eram coxinhas empanadas e cobertas com molhinho picante – e, no intervalo entre uma e outra, palitinhos de salsão com molho de blue cheese. Delícia.

Piggie burger (R$ 24), coberto com costelinha desfiada e molho barbecue. O pão poderia estar mais quente e, embora deliciosa, a costelinha mascarava um pouco o sabor do hambúrguer alto, vermelhinho por dentro, suculento. Adorei, mas da próxima vez vou pedir o tradicional mesmo – com bacon e queijo, porque não sou tão purista assim.

Para o japa, baby back ribs (R$ 37): as costelinhas de porco, em porção gigantesca, vieram com casquinha crocante e carne supermacia, de dispensar a faca.

De acompanhamento, que deve ser pedido a parte, não resistimos ao hash brown (R$ 10), ninho de batata ralada fininha e frita (na versão do 210, misturada com cebolas), que para mim tem gosto de infância: meu ex-padrasto americano adorava fazer de café da manhã como parte da sua missão nada frustrada em converter eu e minha irmã ao american-way-of-breakfast.

Talvez por causa desse passado eu não tenha ficado com peso na consciência nenhum em pedir como entradinha o bacon grelhado (R$ 24), que é defumado na própria casa e servido em duas fatias grossinhas com xarope de maple e vinagrete de salsa.

Diz o Benny que a ideia é, mais para frente, manter o 210 Diner aberto 24 horas por dia. Se isso se confirmar, vou bater ponto no café da manhã, só para comer esse bacon com os ovos fritos e omeletes que também estão no cardápio. Mas, enquanto não rola, só a notícia de que vai abrir nas noites de domingo – o período mais micado pra quem quer comer fora – já deixou a gente bem feliz.

Até pensamos em trocar a sobremesa por um BLT, mas o interesse dos nossos leitores falou mais alto – vocês querem o serviço completo, né? Então lá fomos nós de Devil’s Food Cake (R$ 16), que ajudou a comprovar a nossa tese de que se o 210 Diner virasse rede, desbancaria fácil, fácil o America. O tijolão de bolo de chocolate veio fofinho e coberto por um rico chocolate amargo daqueles bons de usar o dedo para limpar o prato.

Ainda estava digerindo o jantar quando recebi a notícia de que o Saints, o eterno azarão do futebol americano, quebrou o jejum e ganhou o Super Bowl pela primeira vez na História!

Pra comemorar, Louis Armstrong no som:

E aí lembrei de uma história que não tem nada a ver com comida, mas que eu queria contar aqui. Foi em 1989, no parque de diversões de uma feira em New Orleans. Eu e a minha irmã gastando todas as nossas moedinhas tentando estourar bexigas com dardos para ganhar um urso de pelúcia da Coca-Cola (aqueles que viraram febre por causa da propaganda). De repente apareceram uns jogadores do Saints gigantões e se ofereceram para jogar por nós. Resultado: saímos de lá todas pimponas, com três ursos gigantes e fotos com os nossos novos heróis. Talvez por isso eu tenha ficado quase tão empolgada com a vitória do time quanto com a abertura do novo restaurante americano do Benny.

210 Diner
R. Pará, 210, Higienópolis
Tel: 3661-1219
3ª a 5ª: 19h/0h; 6ª e sáb.: 19h/0h30; dom: 19h/23h30

… ideias fora do lugar

quinta-feira, 28 janeiro, 2010 por Demian Takahashi

Você já viu essa decoração em algum lugar…

… as colunas branquinhas com espelhos, as luminárias, as cadeiras escuras…

… esses ladrilhos do chão.

Alguém aí disse “Astor”? Na-na-ni-na-não. É um bar em Minas Gerais, a 500km de São Paulo. Ficamos boquiabertos com a semelhança. E tristes. Pois não se trata de um empreendimento novo, e sim de um lugar tradicionalíssimo, que quis – por algum motivo – se “atualizar”.

Aos senhores-donos-de-bar-brasil-afora fazemos um desabafo: Em São Paulo já existe um Astor. Agora temos até um SubAstor. Ninguém precisa de PseudosAstor!

… a Itália em pequenas porções

quarta-feira, 27 janeiro, 2010 por quebichomemordeu

Não é de hoje que a gente discute em casa sobre o que é mais reconfortante: macarronada ou missoshiru (adivinhem quem defende o quê…). O argumento de uma metade do Bicho para derrubar a macarronada é que um pratão de massa com molho é monotemático demais, cansativo de comer.

Tudo indicava que a nossa visita ao já tão falado Bottagallo, novo bar na Jesuíno Arruda, no Itaim, colocaria fim à discussão – pelo menos por uma noite. Afinal, a proposta da casa é servir comida italiana à moda das tapas espanholas: em porções pequenas, para comer de tudo um pouco na mesma sentada.

Resultado de uma sociedade entre a Cia. Tradicional de Comércio (dos bares Pirajá, Astor, SubAstor, Original, da Lanchonete da Cidade e das pizzarias Braz) e o pessoal da Adega Santiago, o Bottagallo mal abriu e já é sucesso de crítica e de público. Comparações, claro, são inevitáveis. A decoração lembra a do Quintal do Braz, mas com aquelas cadeiras desconfortáveis da Adega Santiago (os ônus da parceria?). Os garçons são tão simpáticos quanto os da pizzaria Braz. E parece que o Pereira ensinou direitinho a equipe do bar, porque o dry martini é tão bom quanto o do SubAstor. Ah, detalhe importante: os preços são bem mais baixos – aleluia! – que os da caríssima Adega Santiago.

Chamamos a Clau e o Gui como testemunhas da discussão – e também para ajudar o Bicho a provar uma variedade maior de porçõezinhas. A Clau, quase cidadã de Bolonha, se encantou com o cardápio já na (longa) espera: “nunca pensei que veria crescentina no Brasil!”, exclamou ao ler a descrição do Pastel de Vento (R$ 29), uma massa frita que serve de base para frios e picles, típica de lá.

As fatias de salaminho, mortadela e presunto cru vieram finíssimas. E as conservinhas de legumes davam a acidez e a textura-croc-croc perfeita para a combinação. Rolaram até uns suspiros saudosos da Clau: “faltou vir queijo, mas tá melhor que muitos que eu comi na Itália…”

Apesar da fama dos tomates San Marzano, o molho que cobria o ravióli de burrata (R$ 15), estava grosseiro, ácido demais. E “cobria” é jeito de falar: a grande quantidade de molho soterrou o delicado queijinho. Sorte que o cardápio tinha muitas outras opções…

A prova de que massa pode ser boa mesmo sem molho, mesmo sem queijo, estava no plin no guardanapo (R$ 14). Os pequenos agnolotti eram viciantes, bem carnosos e delicados. Ah, e quem diz que não se importa com a apresentação de pratos provavelmente mudaria de ideia ao abrir o charmoso paninho que embrulha o petisco.

A cobertura de funghi da polenta grelhada (R$ 13) estava sensacional – deu vontade de pedir mais uma porção, dessa vez só de funghi… porque o que tem no cardápio é um mix, com quadradinhos também cobertos de gorgonzola (fortíssima, de arrancar suspiros da Clau) e outros com um molho bolonhesa, meio apagadinho.

Mas repetir pedidos estava fora de cogitação. Então lá fomos nós de costelinha de porco na lenha (R$19). Pena que não demos tanta sorte quanto o Luiz Américo: as nossas estavam duras, com uma capa de gordura que não conseguiu se derreter pra dentro da carne.

Já a linguiça de javali com feijão branco (R$ 11, dá pra acreditar?!?) era quase uma minifeijoada albina, com molho espesso, gordo e aquele delicioso amido-virando-pasta-virando-caldo do feijão. E nem sinal de pesar no estômago…

As massas estavam perdendo para as outras porções – e a antiga discussão já estava até esquecida – quando chegou o maior hit da noite: gnochi dourado (R$ 13), com casquinha crocante, leve na combinação com ricota (meio insossa, é verdade), folhinhas de rúcula e pedacinhos de tomate.

Satisfeitos mas ainda curiosos, resolvemos encarar as batatas com ovo caipira e chips de parma (R$ 27). Pena que o presunto estivesse tão salgado (quando a gente faz em casa o sal também se concentra… alguém sabe como evitar isso?). E ficamos brigando pela preciosa gema molinha, que sumiu antes que pudesse recobrir os cubinhos de batata supercrocantes.

O Gui já estava dormindo na mesa quando pedimos a sobremesa. “Gente, vocês não vão parar de comer hoje?”, falava sonâmbulo. Mas abriu um pouquinho o olho e sucumbiu à pannacotta com compota de morango (R$ 15): um creme lisinho, levíssimo e com sabor que durou na boca e grudou na memória. Nada a ver com aquela textura de flan de tantas pannacottas infames servidas por aí.

Em tempo: a extensa carta de vinhos é totalmente italiana. Mas se você tiver preguiça de fazer mais essa escolha, pode pedir sem medo o vinho da casa. Por sugestão do garçom, foi servido em copos: “é assim que se faz nos bares da Itália”. O Montepulciano tinha aquela acidez toscana deliciosa, mas era meio ligeirinho na boca (momento tostines: “é ligeirinho por ser servido no copo, ou é servido no copo por ser ligeirinho?”). Depois de uns goles, a metade do Bicho que acha missoshiru mais reconfortante que macarronada não queria mais saber de polêmica. Pediu para trocar o copo por uma taça e declarou: “não adianta, nunca vou entender esses italianos…”

… afogado contra a enchente

quarta-feira, 20 janeiro, 2010 por Demian Takahashi

Se o assunto não fosse trágico e se a iniciativa não fosse sincera, seria uma piada de mau gosto. O Lá da Venda, mix de loja e restaurante da Heloisa Bacellar, na rua Harmonia, vai doar metade do faturamento com o prato típico de São Luís do Paraitinga – que tem o sugestivo nome de afogado – à reconstrução da cidade paulista, destruída pelas chuvas do começo do ano.

Originalmente um picadinho tropeiro cozido por horas, a versão da Heloisa – servida apenas aos sábados – é bem leve e perfumada. Combina superbem com a banana assada docinha e a farinha estalando de fresca que vêm como acompanhamento.

De sobremesa, vá de queijo da Canastra. Com maturação incrível, se desfazendo em infinitas camadas de sabor, acompanha goiabada e bananada (R$ 9). Muito melhor prová-lo assim do que no pão de queijo (R$ 4), massudo demais. Os sorvetes caseiros (R$ 7, uma bola) também são uma boa pra aplacar esse calorzão.

Antes de ir embora, dê uma voltinha pela loja. E garimpe fofurices como os pesinhos de toalha de mesa (R$ 5, cada), que a própria Heloisa manda fabricar. E descubra que ela é ainda mais prendada do que seus livros de receita – Cozinhando para Amigos e Entre Panelas e Tigelas – fazem acreditar. Pois não é que a Heloisa, além de cozinheira de mão cheia, faz ela mesma as travessas de cerâmica e os joguinhos americanos que estão à venda?

Um bom programa de fim de semana para comer bem e – de quebra – fazer o bem.

… Dalva e Dito, um ano

terça-feira, 19 janeiro, 2010 por Demian Takahashi

E não é que já se passou um ano? Em 13 de janeiro de 2009, era inaugurado o brasileiro Dalva e Dito. Foi uma sensação. Muito maior que Alex Atala, o mentor do restaurante, imaginava. Ninguém gostou de um chef francês, o Alain Poletto, cuidando da cozinha brasileira. Todo mundo reclamou do preço do franguinho assado na televisão de cachorro. Ninguém entendeu a sela de cordeiro, um corte francês, no cardápio.

Todos se ofenderam, no fundo no fundo, com a pretensão que o Dalva e Dito tinha: representar e reinventar a culinária brasileira, aquela das nossas avós. Uma tal mandioca, por exemplo, tinha toda a pompa de ser cozida à baixa temperatura, mas não entregava nem o sabor nem a textura da versão frita em óleo de soja bem quente, em panela de alumínio.

Foi um ano dos infernos pro restaurante. O Poletto acabou jogando o avental, o cardápio foi reformulado, Alex teve de se desdobrar entre o D.O.M. e o Dalva e Dito… E as coisas pareciam estar entrando nos eixos. Em novembro, durante o Prêmio Paladar 2009, comemos um porco na lata sensacional. Tão bom, mas tão bom, que mereceu nosso voto de melhor carne de porco. Mereceu também nosso voto de confiança para comemorarmos lá, na semana passada, um aniversário de família.

Começou com um excelente couvert (R$ 12). A pasta de feijão tinha aquele gostinho gordo de feijoada, a manteiga Aviação veio cremosíssima e os pães, se não estavam quentes, eram muito macios, muito saborosos.

Já a moqueca baiana (R$ 84, para duas pessoas), apesar do ótimo peixe e da generosidade no coentro (ingrediente opcional, segundo o cardápio), estava muito devagar no sabor de leite de coco, no azeite de dendê. O pirão, feito na hora, com o restante do caldo do cozimento, porém, se deu bem com o molhinho suave.

Insistimos para alguém da mesa pedir o premiado porco na lata (R$ 39). Mas demos com os burros n’água. Desta vez, ele veio carregado no sal. Bom mesmo estava o purê de batatas com pequi, cremoso e super refrescante.

O bacalhau (da marca Dias, segundo o cardápio, R$ 58), apesar de se soltar em lascas suculentas e perfeitas, também tinha sal demais. Não deu pra não comentar: “Mas o bacalhau Dias já não vem dessalgado, pronto pra cozinhar?” Sua receita não poderia ser mais caseira: cozida com batata, tomate, cebola, pimentão, azeitona…

A picanha no espeto (R$ 44) deixou a Anna furiosíssima com sua textura farinhenta, de pós-maturação, sem suco: “até a do refeitório da firma é mais gostosa!” Sorte que ela se divertiu com o acompanhamento: o fantástico e brasileiríssimo ratatouille do sertão (com batata-doce, mandioca, quiabo, maxixe…).

Eu repetia perplexo: “os acompanhamentos estão melhores que os pratos”. Na nossa primeira visita ao Dalva e Dito, em janeiro do ano passado, a impressão foi completamente oposta: as carnes tinham se saído muito melhores que os tristonhos acompanhamentos.

As sobremesas – ufa! – continuavam ótimas. Os sorbets de caju, graviola e papaia com pitanga (R$ 12) estavam leves, frescos, superdelicados. O creme de chocolate (R$ 14), bem amargo, continuava fofo e com aquele divertido perfume-marofa da priprioca. A espuma de manga, ácida, fazia ótimo par com a gordura do sorvete de coco (R$ 14).

Um certo déjà vu me deixou confuso, como na hora de preencher um cheque nos primeiros dias de um ano: “Estamos em janeiro de 2009? Ou de 2010?”

… programa para 2010 começar

quinta-feira, 14 janeiro, 2010 por Anna Angotti

Janeiro nem chegou na metade e já tem leitor reclamando do nosso sumiço. É que a gente ta começando 2010 assim de mansinho, um pé de cada vez. Tem um monte de restaurantes abrindo e até já fomos a alguns, mas o Bicho resolveu inaugurar os posts de 2010 com um lugar que tentamos conhecer o ano passado inteiro, e só agora rolou.

A Casa dos Cariris não é bem um restaurante, e sim a casa dos mexicanos Lourdes Hernández-Fuentes e Felipe Ehrenberg – ela cozinheira, ele ex-diplomata. De vez em quando, o casal manda um e-mail com a data em que pretende abrir a casa e a lista dos pratos que a Lourdes está pensando em preparar – a mensagem sempre tem letras bem coloridas e um tanto de parágrafos em que a cocinera exercita seu lado cronista: tem desabafos, lembranças da infância no México, de tudo um pouco…

Em 2009, funcionava assim: o e-mail chegava na minha caixa do UOL, que eu quase nunca vejo porque virou um antro de spam. Quando eu respondia pedindo reserva, nada feito: “Já está cheio. Totalmente”, a Lourdes mandava de volta. Ou o Felipe escrevia: “Iiiiich. Lugar? Não temos mais. Tamos LO-TA-DOSSS!!! E é incredível [SIC], mas a Casa lota em 5-7 horas, já pensou?” Teve um dia que eu fiquei sem resposta, e só recentemente fui descobrir que tínhamos conseguido uma reserva, mas o e-mail nunca chegou. Coisas de 2009…

Toda essa lenga-lenga para dizer que o almoço na Casa dos Cariris, no último domingo, foi nosso derradeiro bota-fora das pendências e atrapalhos do ano que passou, levando ao pé da letra o que estava no e-mail da Lourdes: “Vamos encarar 2010… !!!” (assim, com reticências e exclamações).

Ficamos encantados com a casa, que tem tudo que a gente imagina de um lar mexicano: enfeites de todo tipo nas estantes e parapeitos das janelas, bandeirinhas coloridas, caveirinhas penduradas num abajur, toalhas floridas…

Experimentamos mezcal, o raro destilado que é produzido de maneira bem mais artesanal que tequila e, seguindo a orientação do Felipe (que também nos ensinou que o certo é “o” tequila), comparamos as duas bebidas gole a gole. Primeiro em margaritas, depois em doses servidas em copinhos coloridos que eram um charme só. E comemos. Muito. Dessa vez, o almoço era a la carte, mas pedimos quase tudo que estava no cardápio.

O japa teve que usar a criatividade para definir a mousse de cuitlacoche (R$ 27) que, segundo explicava o menu, é o fungo que parasita o milho, adquirindo seu sabor: “Se terra tivesse sangue, isso seria uma morcilla da terra”. Heresia ou não, o fato é que lembrava mesmo a linguiça de sangue, com uns bocados mais cremosos, outros mais resistentes, e sabor muito potente. Com os crocantes totopos de milho, então…

O cebiche (R$ 26) estava um pouco peixoso – ou seja, pro Bicho que é chato com isso, o peixe poderia ser mais fresco. Mas o molhinho picante e a boa dose de cebola bem que deram conta do recado.

Raspamos com o dedo o mole de banana da terra e ameixas secas – doce, mas nada enjoativo – que vinha no prato de Fajitas (R$ 42). Mais uma vez, na falta de repertório mexicano, o japa comparou seu sabor frutado, defumado e muito profundo com o que veio à memória gustativa: “é um missô mexicano!” Sensacional também o guacamole bem picante e as tirinhas de carne com cebola e queijo. Estamos até agora por entender como nossos vizinhos de mesa podem ter reclamado que a carne estava dura…

Também ficamos inconformados que o pessoal das outras mesas pareceu se contentar só com um ou dois pratinhos, um ou dois drinques. Quando pedimos a cebola recheada de queijo gruyère e shiitake, acompanhada de cereais (R$ 30), a casa já estava quase vazia, se preparando para o segundo turno. Ganhamos até os parabéns dos anfitriões quando viram que conseguimos raspar o prato. Ora, como desperdiçar pétalas de cebola saborosas e os pedacinhos de maçã, pera e banana da terra com cereais crocantes?

“Minha mãe me contava que na época do pós-guerra – e eles eram uma família numerosa mesmo – a gula não era um pecado e sim uma aspiração”, a Lourdes escreveu no e-mail. “Resulta que hoje todo mundo passa fome, mas agora numa tentativa de manter a linha e controlar o colesterol, os triglicérides, evitar os michelines (sejam eles os restaurantes cheios de tentações ou aqueles que se acumulam na zona alguma vez chamada de cintura) e os anunciados infartos, e tudo para parecer mais novo, mais saudável e mais feliz.”

Deus nos livre de ela pensar isso da gente… Então pedimos flan de coco – um para dois, é verdade –, com texturas de pudim de leite e cocada de tabuleiro. Mas a vontade mesmo era ficar para o turno seguinte, dar um tempinho e pedir o que faltou experimentar: as “tortas mexicanas” (que, apesar do nome, são sanduíches) e as quesadillas. Com mais uns drinques, claro. E mais uma sobremesa. Para só então começar a encarar 2010.

Para entrar no mailing da Casa dos Cariris, escreva para guisandeira@gmail.com

… Programa até 2009 acabar

sexta-feira, 25 dezembro, 2009 por Demian Takahashi

O Bicho vai usar esse finalzinho de ano para…

… comer mais leve…

… tomar um solzinho (de preferência sem estragar o jardim)…

… e dar aquelas cochiladas revigorantes no meio da tarde.

Tudo isso pra voltar em 2010 com muito mais apetite. Feliz 2010 para todos!