… Buenos Aires em miúdos

Sexta-Feira, 6 Novembro, 2009 por Demian Takahashi

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O Gui, nosso companheiro de viagem, não se conformou ao nos ver comendo morcilla (8 pesos), no Don Julio: “Urg! Salsicha de sangue? Com tanta coisa boa no cardápio…” Bem que tentei, mas ele se recusou a experimentar o embutido com um pouquinho de chimichurri. Delícia. “Isso é coisa de vampiro”, completou, fazendo o sinal da cruz. Talvez ele tenha razão: só de pensar nele, minha boca enche de água…

Como, então, eu conseguiria convencê-lo a experimentar achuras (os miúdos, marca registrada das boas parrilladas)?

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Os chinchulines de chivito (30 pesos), do La Brigada, em San Telmo, não ajudaram muito. De formato mais que evidente de tripas, eles foram uma sensação. Todos da mesa soltaram, em coro, um sonoro “que nojo!”. Fiquei tão triste de comer sozinho a pratada de chinchulines que achei eles meio sem sabor, com umas partezinhas queimadas demais…

No Bar 6, tentei uma técnica diferente, mais easy-going. Para não chocar assim de cara, exclamei: “vou pedir esse sweetbread!”, ao ver no cardápio o prato de mollejas (glândula timo, que tem um nome muito mais user-friendly em inglês).

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Curioso ao ver o prato (35 pesos), o Gui pediu explicações. E olha que eu usei todo o meu talento descritivo: “tem uma casquinha docinha, caramelizada, crocante, com interior muito cremoso, um leve gostinho de fígado. Fantástico. Quase um foie, só que mais leve. Tem esse molhinho especial de mostarda. E essa saladinha de rúcula de acompanhamento que dá um frescor fantástico…”

Não sei onde eu errei porque ele, novamente, torceu o nariz…

A ideia no El Preferido de Palermo era pedir só a recomendadíssima milanesa. Mas eu não podia, no último dia de viagem, desistir da minha missão. O Gui tinha que experimentar achuras. Apesar do solzão que estava se abrindo lá fora, fui decidido: “una fabada asturiana, por favor”. Todos me olharam espantados: “Que pedido mais descabido, nesse calor…”

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O prato gigantesco (35 pesos), porém, compadeceu meus companheiros de viagem. Ficaram todos com pena de mim, diante daquela megaporção da versão espanhola de feijoada. Uma colheradinha daqui, outra dali… e de repente estávamos todos “compartindo” o prato.

Até o Gui entrou na fabada: “Que delícia! O que tem aí dentro?” Gelei com a pergunta. Como dizer a ele que na fabada vai morcilla – aquela mesma salsicha de sangue – e que, para dar sustância ao caldo, pode-se até mesmo usar pé de porco???

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No desespero, apontei para um quadro lá no fundo do salão e despistei: “A receita tá toda lá”. Ele olhou o quadrinho muito simpático em que uma inofensiva camponesa, vestida a caráter, segurava uma panela e relaxou: “Muito bom…”

Missão cumprida!

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Eu dava uma porção de chinchulines só pra ver a cara do Gui ao ler esse post…

… socuerro! comida por todo lado

Quinta-feira, 5 Novembro, 2009 por Demian Takahashi

“Ai, minha barriga tá doendo…” reclamava a Anna. Realmente, em Buenos Aires, exageramos. Comemos demais: ojo de bife, empanadas, milanesas, helados, doce de leite… Estávamos enjoados de tanta comida.

A sorte era que a cidade é perfeita para bater perna, passear, entrar em lojinhas e ir fazendo a digestão (tá certo que o cheio ininterrupto de assado das ruas não ajudava). Mas, por mais que evitássemos os restaurantes, as comidas – como espíritos mal-assombrados – nos perseguiam:

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Merluzas e boizinhos, estampando papéis de embrulho, na Papelera Palermo (Honduras 4945).

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Sopas Campbell’s, em diversos sabores, na exposição de Andy Warhol, que fica no Malba (Figueroa Alcorta 3415) até fevereiro.

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Cozinha vintage, completa e funcionando, nos fundos da loja de antiguidades Cualquier Verdura (Humberto Primo 517). “Tudo à venda”, dizia a plaquinha. De fazer qualquer cartão de crédito balançar…

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Franguinhos mergulhando em ovo mollet, arte-cabeça de Edgardo Castro, na vitrine da loja de bonecos Sopa de Principes (Thames 1719). O videozinho do site é sensacional.

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Doce de leite, em forma de sabonete, na La Mercearia (Honduras 4799). Com cheiro idêntico ao de doce de leite de verdade. Quem tem coragem de passar isso no corpo?

Ai, o enjoo voltou. Dá-lhe sal de frutas…

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Se você, como nós, anda meio cheio de tanta comida, faça a digestão lendo os deliciosos posts da série “Slow Buenos Aires” no blog de viagem da nossa amiga e companheira Claudia Carmello.

Devora-me… bisteca à fiorentina do Tappo

Quarta-feira, 4 Novembro, 2009 por Anna Angotti

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O Bicho Que Devorou: <b>BRUNO</b>

O Bicho Que Devorou: JUNIOR

Aconteceu de novo: o post entrou no ar e, minutos depois, a resposta certa já estava na caixa de comentários. O Junior não só matou que se tratava da bisteca à fiorentina do Tappo como especificou: “Chef Benny Novak. T-Bone grelhado, alho confitado, rúcula e tomate frio”. Tecnicamente, há uma pequena diferença entre o T-Bone e o Porterhouse, o corte tradicionalmente usado na bisteca fiorentina (com mais filé mignon) – inclusive na do Tappo. Mas é um detalhe que não tira o mérito dos nossos leitores espertos e, diga-se de passagem, muito bem alimentados.

Parabéns, Junior, pelo troféu “O Bicho Que Devorou”. :)

Claro que os leitores-campeões sabem, mas é preciso dizer: enquanto a casa mais antiga e conhecida do chef, o ICI Bistrô, serve clássicos franceses, a especialidade do Tappo são as receitas italianas. O tamanho da bisteca à fiorentina (R$ 56) é inversamente proporcional ao do minúsculo salão: não há como não ver (e invejar) quando o prato é servido em uma mesa vizinha – e o lugar é tão estreitinho que até a mesa lá do fundo parece vizinha.

Se a técnica básica para conseguir dar fim em qualquer bisteca é alternar garfadas do lado do contrafilé (mais resistente, mas saborosíssimo) com do filé (com maciez para repousar a mandíbula), a versão do Tappo tem um atrativo a mais: as folhas de rúcula e a deliciosa saladinha de tomates, que dão um respiro de leveza à missão. O alho, claro, é para os fortes, mas vem assadinho, bem cremoso.

A próxima empreitada do Benny, prometida ainda para esse ano, é um restaurante americano: dá-lhe hambúrgueres, galinhas fritas e outras delícias tão light quanto. Será que vai ter algum páreo para a superbisteca? A nossa alma gorda (e a nossa taxa de colesterol) estão fazendo contagem regressiva para descobrir.

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Em tempo: nossos agradecimentos por todas as dicas de Buenos Aires. Estamos até agora digerindo as milanesas e os bifões de chorizo. Aguardem posts!

Decifra-me… carne

Sexta-Feira, 30 Outubro, 2009 por quebichomemordeu

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Já que nossos leitores andam muuuito espertinhos, o Decifra-me desse final de semana vai somente com a foto, sem dicas. Quem acertar o nome do prato e seu restaurante leva o troféu “O Bicho que Devorou”. Só vamos dizer que essa carne é uma coisa! Uma das melhores da cidade. 

Mas será que ela é melhor que as carnes argentinas? Difícil… Pra tirar a prova, estamos em Buenos Aires (por isso demoramos para publicar o desafio). Terça estamos de volta. Quem tiver dicas imperdíveis, mandaê!  

Ah, e a gente não vai dar o troféu O Bicho Que Devorou para o chef do lugar, mesmo se ele entrar com pseudônimo! 

¡Buen provecho!

… fofinho, não… gordo!

Quinta-feira, 29 Outubro, 2009 por Demian Takahashi

Há algumas semanas, o Cadu foi diagnosticado com “quadro de desidratação”. A veterinária-simpatia foi categórica: “vocês têm que voltar a comida molhada para a dieta dele”.

Aiaiai. Depois de, por razões descritas nesse post, termos dado fim aos patês-de-bico-de-pintinho-cheios-de-hormônios, precisaríamos voltar atrás, ainda por cima nos sentindo culpados pela enfermidade do gatinho.

Como prevíamos, a nossa vida pós-diagnóstico-veterinário tem sido um inferno. Mal chegamos em casa, o gato começa histérico: “miau, miau, miau, hora do rango! miau miau!”Antes mesmo de trancar a porta da frente, somos obrigados a correr para acabar com aquela irritante miadeira.

Os resultados são visíveis. As coxinhas do Cadu estão mais tenras, a cara mais rechonchuda, fazemos maior esforço para levantá-lo do chão: “Uf! Ele tava muito desidratado mesmo, olha como agora ele está fofinho!”, comemorava a Anna, enquanto acariciava a barriga saliente do bichano.

“Fofinho não! Gordo!” li em alto e bom som a manchete da matéria sobre obesidade em pets, que saiu na Veja da semana passada [disclamer: a gente não compra a revista – por razões profissionais, ganhamos a dita cuja].

A Anna arregalou os olhos ao ver estampada na página uma foto de um gato igualzinho ao Cadu: “é o nosso gato! é o nosso gato! O Cadu tem predisposição genética. Ele está obeso…”, nos desesperamos.

Estava fora de cogitação cortar a comida mole, seria contra as recomendações médicas. O que fazer, então? “Ele tem que praticar o autocontrole. Não comer tudo tão rápido assim”, ponderou a Anna.

Ah, tá. Então, para lembrá-lo dos perigos da comilança e da obesidade, penduramos a reportagem ao lado dos seus pratinhos de comida.

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Apesar de sermos péssimo exemplo, nossa parte está feita. Será que o Cadu vai fazer a dele?

… modéstia pouca é bobagem

Terça-feira, 27 Outubro, 2009 por Anna Angotti

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Cena no último fim de semana no Kinoshita:

— It was very good! Better than Nobu! — alguém na mesa grande de estrangeiros disse ao Murakami quando o chef foi cumprimentar a turma depois do jantar. [A moça se referia aos restaurantes da badalada rede do chef Nobuyuki Matsuhisa, que se espalhou pelos EUA e tem casas na Europa e na Ásia.]

Na maior naturalidade do mundo, ele respondeu:

— Actually, I want to be better than Masa! — citando o três-estrelas Michelin de Nova York, considerado o melhor japonês dos EUA e um dos restaurantes mais caros do mundo.

Quem mandou dar corda, né?

Devora-me… tiramisù do Babbo Adelio

Segunda-feira, 26 Outubro, 2009 por Demian Takahashi

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O Bicho Que Devorou: <b>BRUNO</b>

O Bicho Que Devorou: FERNANDA GARCIA

Assim não tem graça. No minuto seguinte em que o desafio entrou no ar, a Fernanda Garcia já matou a pau. Veja o nível da resposta: “Sobremesa: tiramissu, restaurante Forneria Babbo Adelio, chef Giancarlo Marcheggiani que anteriormente esteve no Terraço Itália”.

Com leitores como esse, quem precisa de blogs de gastronomia? :)

Com louvor, a Fernanda leva o troféu “O Bicho Que Devorou”. Parabéns!

Esse bufê, na Pedroso de Morais, perto da FNAC, tem preço camaradíssimo (R$ 20,90 por quilo, de segunda a sexta), antepastos muito saborosos e assados diferentes todos os dias. Terça é dia de pernil de vitelo, fatiado na frente dos clientes pelo próprio Giancarlo, que comandou por mais de dez anos o restaurante do Terraço Itália.

As estrelas da casa, porém, são sem dúvida as sobremesas. A leveza incrível do tiramisù (vendido em copinhos de uns 50g, o que dá R$ 1,05 por copo) leva a crer que seja feito com mascarpone de verdade. O bolinho ao fundo é molhado com café na medida, superdelicado.

O problema (pra balança, não pro bolso) é que – como diz aquele slogan dos salgadinhos – vai ser impossível comer um só…