
O Maní está com tudo. Depois de sua passagem por São Paulo, François Simon, crítico do Le Figaro, escreveu que Helena Rizzo é uma cozinheira dos diabos (de boa). Numa crônica recente em sua coluna na Folha, Nina Horta também rasgou elogios à chef, “uma artista que se encaminhou para a cozinha e usa o perfeccionismo que usaria nas telas, nos desenhos ou esculturas” (link só para assinantes Folha/UOL).
Tá certo que o François Simon não se revelou um crítico dos mais exigentes em território tupiniquim, e que a Nina exagera – e, quanto mais ela exagera, mais deliciosas são suas crônicas. Mas que o Maní anda fazendo bonito, ah, isso anda.
A gente não consegue entender quando outros blogueiros reclamam do serviço: já comemos mal no Maní no passado – um tucupi salgado demais aqui, um cordeiro com gosto de congelado acolá – mas as garçonetes sempre fizeram mil peripécias para que, mesmo nessas situações-limite, saíssemos com a certeza de que voltaríamos.
Ainda bem, porque cada vez que a gente volta, a sensação é de que a comida está melhor.
No nosso último almoço lá, descobrimos que os pirulitos crocantes de parmesão do couvert são servidos apenas no jantar – ou em porções de seis unidades a qualquer hora. “Que pena, seis é muito, fica pra próxima”, falamos. Mas logo veio uma duplinha, devidamente cobrada como couvert de jantar (R$ 10) na conta do almoço. Pequenas gentilezas que não prejudicam ninguém.
Também não foi a primeira vez que pedimos um vinho que estava em falta. Como não foi a primeira em que o sommelier ofereceu uma garrafa superior pelo preço do pedido original. “Não faz mais que obrigação”, dirão os ranzinzas. Sim, mas na maré de picaretagem que a gente anda vendo por aí, quem cumpre a obrigação já merece crédito.

Não caímos de amores pelo carpaccio de polvo (R$ 36), com fatias mornas servidas em uma louça aquecida com batatas e frisée. Sentimos falta de acidez, de frescor. Mas, mesmo assim, raspamos o prato, animados pela páprica que dava certa graça ao conjunto.

Difícil é ir ao Maní e não pedir o peixe a baixa temperatura com espuma de tucupi, banana da terra e migalhas de pão e farinha de milho (R$ 55). É um prato inspiradíssimo, bonito de ver e melhor ainda de devorar. Os ingredientes – peixe, banana, tucupi, pétalas e migalhinhas – são combinados com harmonia, não brigam por atenção. É mais ou menos como levar à boca um standard da Bossa Nova (ai, que bicho me mordeu?).
Só não votamos nesse prato no Prêmio Paladar porque, na primeira vez que provamos, estava salgado demais. Há quem culpe o fornecimento irregular de tucupi, mas cabe aos cozinheiros se acertar com os fornecedores e provar os ingredientes (ainda mais aqueles com fama de temperamentais) – não a nós relevar esse pequeno detalhe, né? Mas parece que o problema já foi superado, ou andamos com sorte, porque nas últimas vezes o prato estava perfeito.

De sobremesa, infusão de frutas vermelhas com sorvete de baunilha e raspadinha de sangria (R$ 17). Vinha com um canudinho que imitava pau de canela no visual e no sabor (feito de especiarias, segundo a garçonete) que desmanchava na boca e – como todas as coisas boas demais – acabou muito rápido.
Só no conversor de moedas do François Simon que uma refeição no Maní custa R$ 50. E na licença poética da Nina que “poderia lançar ao mar uns mil navios”. Mas este é, sem dúvida, um dos melhores restaurantes de São Paulo. A comida do Maní inspira, alegra e convida a voltar.
Tanto que é lá que pretendemos levar a tia Elisa em agradecimento pela tradução das críticas do Simon pro Bicho. Ou melhor, do “deslumbrado do Simon”, nas palavras dela.