
O Gui, nosso companheiro de viagem, não se conformou ao nos ver comendo morcilla (8 pesos), no Don Julio: “Urg! Salsicha de sangue? Com tanta coisa boa no cardápio…” Bem que tentei, mas ele se recusou a experimentar o embutido com um pouquinho de chimichurri. Delícia. “Isso é coisa de vampiro”, completou, fazendo o sinal da cruz. Talvez ele tenha razão: só de pensar nele, minha boca enche de água…
Como, então, eu conseguiria convencê-lo a experimentar achuras (os miúdos, marca registrada das boas parrilladas)?

Os chinchulines de chivito (30 pesos), do La Brigada, em San Telmo, não ajudaram muito. De formato mais que evidente de tripas, eles foram uma sensação. Todos da mesa soltaram, em coro, um sonoro “que nojo!”. Fiquei tão triste de comer sozinho a pratada de chinchulines que achei eles meio sem sabor, com umas partezinhas queimadas demais…
No Bar 6, tentei uma técnica diferente, mais easy-going. Para não chocar assim de cara, exclamei: “vou pedir esse sweetbread!”, ao ver no cardápio o prato de mollejas (glândula timo, que tem um nome muito mais user-friendly em inglês).

Curioso ao ver o prato (35 pesos), o Gui pediu explicações. E olha que eu usei todo o meu talento descritivo: “tem uma casquinha docinha, caramelizada, crocante, com interior muito cremoso, um leve gostinho de fígado. Fantástico. Quase um foie, só que mais leve. Tem esse molhinho especial de mostarda. E essa saladinha de rúcula de acompanhamento que dá um frescor fantástico…”
Não sei onde eu errei porque ele, novamente, torceu o nariz…
A ideia no El Preferido de Palermo era pedir só a recomendadíssima milanesa. Mas eu não podia, no último dia de viagem, desistir da minha missão. O Gui tinha que experimentar achuras. Apesar do solzão que estava se abrindo lá fora, fui decidido: “una fabada asturiana, por favor”. Todos me olharam espantados: “Que pedido mais descabido, nesse calor…”

O prato gigantesco (35 pesos), porém, compadeceu meus companheiros de viagem. Ficaram todos com pena de mim, diante daquela megaporção da versão espanhola de feijoada. Uma colheradinha daqui, outra dali… e de repente estávamos todos “compartindo” o prato.
Até o Gui entrou na fabada: “Que delícia! O que tem aí dentro?” Gelei com a pergunta. Como dizer a ele que na fabada vai morcilla – aquela mesma salsicha de sangue – e que, para dar sustância ao caldo, pode-se até mesmo usar pé de porco???

No desespero, apontei para um quadro lá no fundo do salão e despistei: “A receita tá toda lá”. Ele olhou o quadrinho muito simpático em que uma inofensiva camponesa, vestida a caráter, segurava uma panela e relaxou: “Muito bom…”
Missão cumprida!
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Eu dava uma porção de chinchulines só pra ver a cara do Gui ao ler esse post…

















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